22 Junho 2009

Liberdade lança luz sobre o Brasil

A luz da liberdade venceu as nuvens por um dia. E desta vez a vitória pairou sobre uma vertente que eu venero. Julgamento histórico do Supremo Tribunal Federal pôs fim à obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Agora, os mais talentosos jornalistas poderão trabalhar livremente, independentemente de possuírem ou não qualquer diploma. E diplomados despreparados não viverão mais sob as asas de uma reserva de mercado.

É interessante a tara brasileira por diplomas. Há quem diga que nosso fetiche por títulos (graduado, mestre, doutor...) seja uma herança dos tempos coloniais, de Condes, Barões e Duques. Faz sentido. Afora questões de status social, o fato é que, hoje, vivemos sob um paradigma, limitado, de que diplomas são garantia de qualidade – ou, pior, a única forma possível de qualificação. Nada mais descolado da realidade.

Não obstante o péssimo nível das universidades brasileiras (e, mais abrangente, do sistema educacional como um todo), é sobre o campo idealizado dessa visão que quero conversar. Ela possui graves erros, lógicos e morais. Parte-se da premissa de que o Estado é que deve escolher o que é melhor para os indivíduos, como se os burocratas tivessem algum tipo de áurea sobre-humana capaz de fazê-los infalíveis. E, pior: como se o Estado fosse dono das nossas vidas – ou o maior responsável por elas.

Nunca é demais lembrar que não há virtude em ações não voluntárias. A virtude, a beleza da vida, está na autonomia, em fazer as escolhas certas. Se não há escolha a fazer, não há virtude – há somente o tempo passando na janela. Que o Estado pese menos em nossos ombros. “Somos nós que fazemos a vida, como der, ou poder ou quiser”. É preciso celebrar a vitória e seguir em frente na defesa da Liberdade.

24 Maio 2009

o mundo verseja

Cena à sombra, soçobro de vento. O sol se expunha suavemente pelas nuvens, como uma moça que se despe com a arte do amor: tirava uma peça, deslizava um pano; movia a perna, mostrava a coxa. Se exibia, como um decano, e até quase sinônimo, da malicia pelos véus. Fazia desventuras na grande cama que é o céu. Sedutor, levantava cada vez mais alto libidos e olhares atraídos, enquanto o circundante cenário mudava de cor. Os tons de azul cinzento da alvorada se tingiam a cada vigor do astro que ilumina, dando a nós a sensação de que o dia logo cedo a luz rumina. Imagina, leitor, é o que te peço. Porque o que senti é exatamente o que se segue.

Estava só dentro do ônibus. Sob o som de seu motor desconfortável, distribuíra cumprimentos: ao motorista, desejei bom dia; à idosa do acento que parece gratuito, reservei um sorriso. A cobradora recolheu o devido dinheiro e abstraí-me do barulho, sentando junto da janela, na fileira oposta ao homem que dirigia. Foi dia-fenestra a vista que tive, contemplação da moça bela. Ela, pronta pra subir no coletivo, se aproximava da escada. Quando passou pela catraca, houve troca de olhares. Ludibriada por um próprio e indecifrável tento, minha lancinante mente enveredou por um invento, traduzindo com sagacidade o senso do momento. Mergulhei com o tato no vento matinal que entrava pelas frestas dos vidros e senti ficarem rijos os pêlos de meu braço. Da brisa, fez-se perigosa sensação: num suspiro de intenção, com transpiração pesada, uma respiração pausada aproximou-se então assaz, passando, sim, assim e mais... foi soprando minha nuca, alisando meu pescoço e tocando minha face.

Além das carícias do ar, o bem sustado da visão. No arrepio descrito, os olhos meus fecharam e por perícia fixaram a magia da imagem.

Quando voltei à consciência, a via viva no banco da frente. Afora os feixes de raios de luz em sua pele, me chamaram atenção os flabelos lisos flutuando: ensaiavam pequenos passos, seguindo o ritmo generoso dos alísios. O baile do cabelo começou de fato quando a moça resolveu prendê-lo. Os fios se abraçavam no balé movimentado das maestrinas mãos da moça, que orquestrava com esmero a sinfonia afônica. Logo estava eu inebriado novamente: vagava pelos valores dos vales da fantasia, sempre inóspitos a qualquer tipo de medo. Lá estava eu, solto pelo tempo e lentamente atordoado. Curtia aquela cena, que gotejava em partes poucas suas pontas de louvor.

Um pingo de ventura, tu verás, me trouxe uma outra fase de imersão sensorial. Embarquei naqueles olhos, tu verás, naquela imensidão de aventura visual.

A moça inclinou o rosto, gesto terno especial, exibindo os refletores de sua face. Na luz límpida do gosto, ri de todos os rancores vislumbrando aquele enlace. Enlace dos efeitos físicos, das lições de olhos de lua à míngua, verdadeiro encaixe de sentidos. Aglutinamento sinestésico de desejos, pensamentos e, sobretudo, espumas. Desejos de sorte, de ajudas ao forte e lampejos de glória. Pensamentos no espaço dos braços da escolha, nos montes de livros que nos fazem livres, nos risos, nos riscos, no êxtase da esthesia. Esthesia nas espumas das ondas de vida que vinham das vozes – violentas por vezes, é verdade; mas sempre no compasso do balanço das brumas, das brumas internas que nos trazem luz, que nos fazem jus a quimeras realizáveis.

A viagem somente segue se locam os versos da vida ouvidos alheios. Se há uma pausa nos versos, há pausa na vida, se pára a viagem. Se não se partilham con-versos, o que faz sentido, que nos dá passagem?

Pensava somente em abrir – não sei se a boca, não sei se a alma – e em um instante ao menos conviver com a moça. Um alvoroço, no entanto, chamou-me atenção. Enquanto comigo, aqui dentro, sentir pulsar a ausência de cosmos, como ordenar os ardores e ouvir ou cheirar ou dizer ou exalar os versejos do mundo? Não há como exprimir as vontades, desrazões ou razões que a vida nos traz se no momento não temos sequer condições de senti-la.

Desviei os meus olhos, querendo ganhar tempo. O sol preocupado com o rumo das digressões tratou de agir. Quando vagava meu olhar pensativo pela esquerda do veículo, o astro lançou um filete certeiro, que passou pelas janelas da parte esquerda do ônibus e atingiu minha retina, agora totalmente deslumbrada. Encandeado, vi por uns segundos somente sombras. A negritude nos olhos desviou-me os cuidados e precisei virar o rosto ao outro lado. Você deve compreender como é irritante tentar encarar e depois precisar das próprias visões como um tolo fugir. E suportar o sol, de tão descarado, fazer-lhe cego por ver a luz.

Recompus minha vista quando olhava para a direita. O carro passava sobre o rio e pude ver sob a ponte vizinha um homem acomodado no concreto. Parecia que ali, sentado, sentia a clareza da solidão. Compenetrava-se em seu próprio corpo. Vestido com roupas de aparente velhice, não devia ter certezas na via que passa, mas observava sua imagem refletida no turvo das águas. Junto com o homem, pesei a semente da suprema sapiência. Pensava nas praças da consciência: há lugares adequados a cada passagem. Nos cabe plantar, podar e colher para o bem das folhagens. E o homem estava ali, aparentemente atento aos deveres que tinha. Segui a mensagem e mergulhei, cauto, em minha própria podagem. Cortar um verbete verde pode matar uma árvore, comprometendo toda praça. É preciso tirar apenas os galhos certos, para que melhor floresçam os saberes de si, que são árvores vastas. E foi quando vi aquele homem que explodiu meu devaneio: andei com ele nos encantos urbanos do pensamento. Quando no enleio cheguei à calçada limite da arborização, recebi mais uma visita do sol, que saíra do silêncio perfurando resistências. No holofote, à minha frente, estava lá a moça.

E, enfim, eu, agora, sentia que estava pleno. Princípios claros, pude pela primeira vez andar além do meu corpo. O mundo inteiro, ouvi, versejava a arte da existência. A vida inteira, eu vi, convidava a conviver. O desejo estritamente voluntário de comunhão extrema me fez soprar os lábios com um canto ritmado e falei. Falei estendendo meu ser. Falei e poderia escrever. Falei e poderia cantar. Poderia pintar. Poderia dançar ou tocar instrumentos. Falei. Falei para a moça dos cabelos bailarinos. Falei para os viajantes do mundo. Falei para o homem sentado no concreto. Falei para o sol. Falei para as nuvens. Falei, sobretudo, para mim mesmo.

20 Maio 2009

Mídia: a mediação social

Está em todos os lados: nas ruas, nas praças, em casas e carros. Envolve as pessoas e ajuda a uni-las, ao passo em que circula informações entre os indivíduos como o sangue nutre as células de um corpo. Aquilo a que nos habituamos chamar de mídia tem uma participação cada vez mais consolidada na vida em sociedade. É preciso, então, refletir: afinal, o que é a mídia? E qual a sua função?

Em primeiro lugar, é salutar termos em mente que a mídia abarca ramos diversos da comunicação. Imprensa, publicidade, trabalhos artísticos são expressões que compõe esse universo. Mas o que estes meios mantêm em comum? Exatamente: eles são, acima de tudo, meios, veículos. Ou seja, atuam como mediadores sociais. É justamente a partir da mídia que a sociedade se comunica, em diferentes níveis, o que permite abordagens de um público extremamente abrangente e torna relevante esta esfera social.

Neste processo comunicativo, merece atenção especial um fator substantivo. Qual a influencia dos sujeitos que constroem a mídia? É inegável que os rumos do pensamento e debate públicos são decisivamente influenciados pela pauta midiática. Assim sendo, a responsabilidade dos veículos de comunicação é algo de estratosférico, pois assume potencialidade para induzir mudanças e questionamentos profundos na sociedade e na história que se trilha.

Como encarar esse encargo? O operador midiático deve funcionar como um filtro, absorvendo as principais demandas sociais e as reverberando na melhor direção possível (algo difícil de pesar). São, portanto, necessidades evidentes a quem se aventurar nesta missão ter um rigoroso preparo intelectual e uma acurada sensibilidade ética. Infelizmente, não parece que estas diretrizes estejam sendo devidamente consideradas na atualidade.

O diagnóstico desta realidade comumente culpa a necessidade das empresas do setor de atender aos interesses comerciais. Interesse comercial significa lucro, que advém das vendas - da atração da atenção do público. É óbvio que atrair o público não pode ser encarado como um problema, já que toda persuasão, inclusive para guinadas éticas da sociedade, depende deste fator. Sendo assim, o grande desafio da mídia não é ser imune a objetivos comerciais, mas aliá-los aos objetivos éticos: atrair o público induzindo mudanças sociais positivas.

03 Maio 2009

Os democracismos e a democracia

A América Latina não possui tradição democrática nem sistema político consolidado. Talvez seja este o principal motivo para o entendimento turvo que possuímos sobre democracia. Muito afeitos a simplismos, tendemos a considerar qualquer esforço de votação uma atitude democrática. Pura incompreensão dos grandes avanços que a implantação moderna desta visão política trouxe à civilização.

É sempre ilustrativo lembrar que os principais governos do tenebroso período nazi-fascista possuíram amplo apoio popular. E é obviamente estúpido insinuar que aquele foi um momento democrático. Não, foi um momento assassino. Com respaldo do povo, mas não menos assassino.

O substancial no espírito democrático, de longe, não é a submissão geral às vontades populares. O grande ganho cultural está no respeito aos direitos fundamentais de cada homem. É o respeito às minorias o que caracteriza o ambiente democrático.

Neste sentido, é claro que democracismos (como um plebiscito) não fazem democracia. Em geral, estes artifícios não passam de tentativas de suprimir direitos individuais. Direitos que devemos sempre defender, vigilantes. Para o bem da liberdade e o bom caminhar de qualquer sociedade.